segunda-feira, 28 de junho de 2010

Elefante

Filme: Elefante
Título Original: Elephant
Diretor: Gus Van Sant
Atores: John Robinson, Alex Frost, Nathan Tyson
Ano: 2003
País: Estados Unidos


Três cegos apalpam um elefante para tentar compreendê-lo. Um apalpa a tromba, outro a barriga e outro o rabo. Cada um ao seu modo compreende o animal de maneira diferente. Os três ficam com uma impressão do elefante sem compreender o que ele é em sua completude, algo muito fácil para quem enxerga.


E dizem que daí vem o título do filme, Elefante. Assim sendo entra, sem dúvida, na lista dos melhores títulos de filmes. Pois trata-se de um diretor que procura enxergar o todo através de uma das partes, mas não se cega em definir sua visao como sendo a única verdade.


O assunto é complicado: jovens em uma escola americana que resolvem atirar em colegas e professores e se matarem depois. Fato real que também inspirou o filme de Michael Moore, Tiros em Columbine, e que é bastante recorrente em escolas americanas. Por que? Não faço ideia. Michael Moore tenta explicar, já Gus Vant Sant tenta escutar, observar, analisar.


O filme faz um recorte em alguns dos jovens que ali estudam e permite que eles mostrem suas vidas. A escolha formal acaba sendo natural pelos longos e lindos planos sequencias. As câmeras acompanham os garotos com sensibilidade de lhes permitirem espaço, naturalidade, tempo. Em muitos filmes do Gus Vant Sant há essa liberdade temporal e espacial.


Me agrada o fato do filme não impor sua tese, sua opinião. Não julga ninguém, seja o menino popular ou o nerd (essas divisões que acbam realmente acontecendo nas escolas americanas). O filme é puramente reflexivo. Assim, são os pequenos detalhes que fazem a diferença, um pequeno gesto, uma palavra, um jeito de falar e de olhar.


Vou fazer uma interpretação arriscada de um trecho que particularmente me agrada. Em meio ao desespero na escola, quando a chacina já começou e o filme caminha para seu fim, somos apresentados a um novo personagem que dura apenas uma pequena sequência. Um jovem negro, acompanhado pela câmera, anda calmamente pelos corredores da escola, enquanto todos gritam e correm. Ele tem a postura do herói, que vem para salvar e mudar a história. Mas quando enfim está se aproximando dos matadores é percebido. Recebe um tiro e morre. Fim de sua participação. Aí talvez haja certa ironia, certo humor, de que não há heróis, de que as pessoas realmente morrem por muito pouco.


E fica a pergunta do por que. Por que isso acontece nas escolas americanas?
Como são as outras escolas do mundo? Isto seria um bom tema para os filmes do próximo mês, não?


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Cena do Youtube



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Próxima semana:
Escolas são zoológicos interessantes.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Arquivo de olhos

Estes são os olhos de Sergei Eisenstein, diretor do Encouraçado Potemkin, Outubro, A Greve entre tantos outros clássicos do cinema construtivista. Usei estes olhos no mês de abril.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Barton Fink


Filme: Barton Fink
Título Original: Barton Fink
Diretor: Irmãos Coen
Atores: John Turturro, John Goodman, Judy Davis
Ano: 1991
País: Estados Unidos


Eu sou grande fã dos Irmãos Coen. Talvez, ao lado do Jim Jarmusch, é a cinematografia que mais conheço, do início aos filmes mais recentes. Fazem comédias de grande estilo. Outro dia minha mãe me mostrou uma entrevista com o filósofo Gilles Deleuze, na qual ele dizia que achava muito engraçados autores como Kafka, Becket e companhia. Creio que temos um gosto de humor semelhante e que, portanto, os filmes dos Irmãos Coen também agradariam ao filósofo.

Tenho reparado, aliás, que grande parte dos filmes que tenho escolhido trazem bons toques de humor, mesmo não sendo eles tão explícitos. E os filmes dessa dupla têm, em geral, grande mérito no tipo de humor que fazem. São mestres na criação de personagens caricatos, com trejeitos esquisitos, com manias, com toques. A dupla de atores principais de Barton Fink é genial: John Torturro e John Goodman, muito presente em outros filmes deles.

Barton Fink é um autor teatral de sucesso que é convidado por Hollywood para escrever um roteiro. Mas ele quer, a todo custo, fugir do glamour do cinema, fica em um hotel caindo aos pedaços, encontra pessoas podres, fétidas. E por que a podridão humana atrai os roteiristas? Por que é no sofrimento e na pobreza que estão as melhores histórias?

A resposta pode parecer meio óbvia, mas vale a reflexão: conflito. A base da dramaturgia é o conflito e por isso eu não consigo visualizar uma história sem embates, sem problemas. A dificuldade de Barton Fink é conseguir criar uma história, é o conflito mobilizador da trama. E em toda e qualquer história, conto de fadas, novela das oito, big brother ou comédia romântica há um conflito. Muitas pessoas dizem que não vão ao cinema para ver sofrimento, que querem se divertir e coisas do gênero. Não concordo com esse pensamento. Em primeiro lugar, como mostra bem este filme, o sofrimento pode ser divertido e leve.

Em segundo lugar, creio que o cinema tem uma função essencial de reflexão sobre a vida e o mundo. Ao final dos cem filmes que colocarei aqui, teremos um excelente painel de uma visão de mundo (ou várias, espero) e um repertório fantástico que nos serve cotidianamente. Seja ao falar sobre o tempo ou em uma discussão filosófica de boteco com os amigos, ali estão nosso repertório, que não pode ser raso. Não deve ser. Não gostaria que fosse.

E o que diferencia a boa dramaturgia, o bom conflito de um ruim. Creio que aqui trata-se de uma sensação pessoal de cada um, que é criada a partir de um repertório. Quanto maior o repertório, mais profunda será a necessidade de reflexão. E assim descartaremos novelas e big brothers e o horário nobre da tv transmitirá Barton Fink e as listas das grandes obras já produzidas.

Não sou contra a cultura de massa, desde que ela seja a que eu goste. Se bem que é provável que, se a novela virar underground, eu renego os filmes e faço um blog de novelas...


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Cena no YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=ZGkVBg6k9Rk&feature=related


Próxima semana:
Um jovem americano é um ser muito complexo de compreender.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Segredos e Mentiras

Filme: Segredos e Mentiras
Título Original: Secrets and Lies
Diretor: Mike Leigh
Atores: Brenda Blethyn, Timothy Spall, Marianne Jean-Baptiste
Ano: 1996
País: Inglaterra



A combinação do cineasta Mike Leigh e da atriz Brenda Blethyn cria algumas das melhores pérolas do cinema atual. Os filmes deste diretor inglês trazem marcas muito características e interessantes. Um humor negro de ótima qualidade, profundidade intensa de excelentes personagens, diálogos muito verdadeiros.

A história que conta o Mike Leigh traz sempre um mundo muito próprio de um povo britânico mais pobre, mais sofrido, mais traumatizado e cheio de problemas. Não há muito de um cinema inovador pela linguagem, e sim pelo conteúdo. Como consegue chegar tão longe?

Na ocasião de Segredos e Mentiras, ouvi falar dos métodos de preparação de atores que foram utilizados no filme. Entraram nos personagens e viveram suas vidas durante alguns meses. Mais do que ensaios, o que Mike Leigh traz são vivencias. E fica totalmente explícita a realidade na tela. Em especial através da monstruosa atriz Brenda Blethyn.

A temática também é das minhas: famílias desconstruídas. Adoro relações familiares e as vejo como ótimo pano pra manga. Eu não tenho habilidades descritivas suficientes para exaltar a maravilhoso sutileza e os pequenos detalhes das relações deste filme. Brenda é uma mulher solitária e dramática que não consegue ter proximidade alguma com sua filha. Seu irmão é um fotógrafo (o que rende excepcionais aparições de personagens secundários, como clientes que querem tirar fotografias - vale ver a seqüência no youtube). É um cara mais tranquilo que gostaria de ter relações mais próximas do que as que tem. E a terceira personagem é uma filha negra que Brenda teve e deu para adoção e que agora buscará encontrá-la. A partir daí está criada a teia de relações necessária.

Há o diálogo entre filha adotada e mãe biológica que é sensacional e que eu tinha colocado aqui na cena do youtube. Mas mudei a cena para uma parte que aparecem os personagens sendo fotografados, mais simpático para uma cena de youtube.

Um filme um pouco mais famoso da dupla Leigh e Blethyn é aquele O Barato de Grace. E recomendo também Simplesmente Feliz e Agora ou Nunca (este com o mesmo ator que faz o irmão, Timothy Spall, excelente também). Todos de Mike Leigh, que é outro selo de qualidade, além da palma de ouro de Cannes.

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Cena do youtube:



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Próxima semana:
É necessário conhecer a podridão humana para escreve-la.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Foto de março

Ouvindo pedidos dos nossos internautas, vou deixar arquivos das fotos dos olhos usadas (que vão mudando de mês em mês). Começando pela primeira foto de uma de minhas musas (e do Godard), Anna Karina.







segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Quarto do Filho


Filme: O Quarto do Filho
Título Original: La Stanza del Figlio
Diretor: Nanni Moretti
Atores: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giusepe Sanfelice
Ano: 2001
País: Itália





Respire fundo antes de mergulhar neste filme. Uma das maiores rupturas que podem ser imaginadas é a perda do filho. A morte, quando já há muito esperada e consentida, quando da doença ou velhice, pode ser compreendida e aceita. Mas quando aparece do nada, de repente, sem pedir licença, o tombo é inevitável. E meu pai sempre diz que a perda de um filho é a pior que se pode ter, uma quebra da concepção natural, o ponto fora da curva. E é disto que trata este filme, de mim e de meu pai, de como ele reagiria caso eu... Bom, já o vejo batendo na madeira três vezes.

Nanni Moretti dirige e atua, sendo o pai psicólogo que perde o filho, Andrea. Antes disso, no entanto, vemos como funciona a dinâmica da família, de classe média, unida, os pais e um casal de filhos. Clássicos e típicos, o pai tentando ser um bom pai, ciúmes da filha, preocupado com o filho. A relação já era por si só um espelho de minha família, mas entra fundo em minha alma uma cena simples, na qual o garoto perde uma partida de tênis em um campeonato sem importância. Ele não liga muito, mas o pai acha que ele perdeu de propósito, porque podia ganhar. Durante o jogo fica ansioso, angustiado, é muito mais competitivo que o próprio filho que está jogando. Começa a reclamar que ele se distrai, que parte para outro mundo no meio do jogo e discute com ele após a partida. Pai: Você perdeu de propósito, joga por jogar. A graça é jogar para vencer, não é? Não, ele e eu respondemos.

E aí vem a ruptura. Andrea morre em um acidente, a vida como um sopro, o pai se culpa, não conseguem trabalhar, a relação na família se desestabiliza e por aí vai. Mas a profundidade dos personagens e o clima (como sempre) do filme, são essenciais para seu desenvolvimento. Pouco depois do lançamento deste filme saiu uma cópia americana de mesmo estilo, a mesma história, até alguns planos iguais, chamado "Entre Quatro Paredes". Uma merda que até concorreu a alguns Oscars. Vale ver os dois para saber diferenciar climas de filmes, o americano sendo dramático, exagerado, estúpido. Já o italiano é pesado mas sensível, leve toque de humor.

Vale também salientar o lado bem humorado que geralmente trazem filmes com psicólogos e suas relações com seus pacientes, como há em vários filmes do Woody Allen e um filme que falarei mais para frente, "Felicidade".


Mas como é dura, a partida de Andrea.



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Cena do youtube:



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Próxima semana:
Quem curte humor negro-familiar-britânico?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Junho - Mais Cannes

Calma, ainda não acabou a sessão Cannes. Ainda mais agora, que acaba de terminar o festival deste ano e o filme vencedor parece bem interessante. Um tailandês, com uma fábula poética, pelo que dizem. Eis a lista dos filmes que valerão a pena ver esse ano (no mínimo): aqui.

Entre os mais experimentais, figuram as estrelas do cinema alternativo, como Kiarostami, Juliette Binoche (ganhou o prêmio de atriz) e Javier Bardem (ganhou o de ator).

O selo Palma de Ouro ainda me encantou mais cinco vezes, sendo que neste mês caberão mais quatro e um servirá de gancho para o mês que vem.

Agora os filmes já não são tão badalados e clássicos como os anteriores. Mesmo assim, dos quatro filmes de junho, dois são americanos. Os outros dois são italiano e inglês. Relativamente mais novos, todos tratam de temas pesados, ora com um tom mais bem humorado, ora com tom mais sério.

Entre os diretores, as marcas são claras, com exceção do italiano Nanni Moretti, cujo filme apresentarei na semana que vem e cuja obra não conheço muito bem. Vi apenas dois outros filmes dele, que nada me impressionaram. Já o inglês Mike Leigh e os americanos Gus Van Sant e os irmãos Coen têm moral para perder a mão de vez em quando.

Os filmes falam de morte, de relações familiares complicadas e vão fundo ao destrinchar os ambientes que estudam. A vantagem de falar deles é que são obras-primas, sem dúvida nenhuma.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Taxi Driver


Filme: Taxi Driver
Título Original: Idem
Diretor: Martin Scorsese
Atores: Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel, Cybill Shepherd
Ano: 1976
País: EUA

Assim como Coppola, Scorsese é outro monstro cineasta que fez suas melhores obras no início de carreira. Também amante do cinema italiano (como eu), fez Touro Indomável, Alice Não Mora Mais Aqui, Depois de Horas e mesmo seu primeiro filme, Quem Bate à Minha Porta? já tinham muitos elementos interessantes, inclusive o ator Harvey Keitel.

Ele fazia filmes sobre sua realidade, sobre a escuridão de Nova Iorque, sobre o submundo. Eu tenho grande apreço por dois filmes dele, que são muito relacionados: Vivendo no Limite, onde Nicolas Cage faz um paramédico que trabalha durante a noite, encontrando personagens bizarros e o mundo esquisito da noite (muito presente no filme kafkaniano Depois de Horas); e Taxi Driver, sua obra prima, com o mestre Robert De Niro fazendo um taxista, também vivendo neste mundo esquisito. Creio que o Scorsese adoraria que seus filmes e personagens fossem comparados aos de Fellini, mas apesar da nítida referência, são dois tipos de personagens diferentes.

Esses dias fui devolver um carro alugado, de madrugada na locadora, em Santarém, Pará. O guardinha estava falando no celular com uma garota (suponho). Disse que tinha que desligar porque um cliente tinha chegado. Eu fiz que não se preocupasse, pois não tinha pressa. Conversamos e em poucos minutos parecíamos amigos íntimos, eu brinquei com ele "estava namorando, hein" e ele me respondeu de forma absolutamente scorsesiana "devo te dizer uma coisa, a gente que trabalha a noite acaba ficando safado" e me contou alguns de seus casos bizarros.

Are you talking to me?

O Robert De Niro, jovem (outro que cansou de fazer coisas decentes), entra de tal forma no taxista que se torna memorável. Personagem de poucos amigos, poucas palavras, pouca inteligência e sem ter muito o que fazer. Ele se interessa por uma garota, bonita, inteligente, politizada e com seu jeito sem jeito, bruto e forçado a convence a sair com ele, ir ao cinema. Gosto muito desta cena, pois a escolha dele é pelo lugar que ele sempre frequenta, um desses cinemas pornôs de quinta categoria. Ela, obviamente, se ofende e ele não compreende porque, ficando puto da vida com ela.

Muito é possível compreender da cultura americana também. Da paixão pela arma e seu fetiche. A cena clássica, antológica, abaixo no youtube é ele treinando na frente do espelho: are you talking to me? (você está falando comigo?)


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Cena do youtube:

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Próxima semana:
A morte como ruptura incompreensível.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Apocalypse Now



Título: Apocalypse Now
Título Original: Idem
Diretor: Francis Ford Coppola
Atores: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duval
Ano: 1979
País: EUA


Este é daqueles filmes que não se discute. Eis a obra prima. Talvez se discuta a versão, a minha é a Redux (versão do diretor, que foi relançada no cinema). Muita coisa na carreira de Coppola é questionável, mas algumas são brilhantes, geniais, inacreditáveis. Ele é como aquele jogador de futebol que é craque mas tem preguiça de jogar, aí de vez em quando faz uma jogada inacreditável. Ou ainda é daquele tipo que jogava muito quando era moleque e agora já está velho e cansado. Acontece muito no cinema.
Bom, Apocalypse Now é o melhor filme de guerra já feito. Mas este gênero pode ser questionado, ou não? Acontece que li uma cena de um livro, de passagem (Matadouro 5, do Kurt Vonnegut) e minha visão sobre filmes militaristas mudou para sempre. Uma mulher critica os filmes de guerra, mesmo o mais pacifista deles, por criarem uma áurea heróica por trás deste evento que eu não tenho capacidade de imaginar. Desde então vejo filmes de guerra com outros olhos. Mas não impede a beleza cinematográfica e a perfeição artística de Apocalypse Now.
Há cenas marcantes, como o início ao som de The Doors e a cena dos helicópteros ao som de Cavalgada das Valquírias (cena no youtube abaixo), mas o que me parece mais interessante e fundamental é o clima e as sensações que são passadas.
O peso, a escuridão, a lentidão, o calor, o sofrimento, a falta de sentido, a perda de consciência, falta de noção do tempo, falta de noção de tudo, enjôo, amplitude, horizonte infinito, não chegar a lugar nenhum, andar em círculo, dar um tiro no próprio pé, dar um tiro para cima, dar um tiro no outro, dar um tiro no seu irmão, cheiro de morte e de napalm.
Nada mais a dizer.

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Cena do youtube:


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Próxima semana:
Você está falando comigo? Tá falando comigo?!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pulp Fiction


Filme: Pulp Fiction
Título Original: Idem
Diretor: Quentin Tarantino
Atores: Samuel L. Jackson, John Travolta, Uma Thurman, Bruce Willis, Ving Rhames, Maria de Medeiros
Ano: 1994
País: EUA



Tarantino é um marco para minha geração. E Pulp Fiction é sua obra prima. Daquelas que tive que assistir trezentas mil vezes até decorar o trecho bíblico citado por Samuel L. Jackson (em cena que deixei abaixo, no youtube).

Mestre dos diálogos e da perfeição de cada cena, a única coisa que poderia me incomodar em seus filmes é a falta de uma unidade, que é, ao mesmo tempo, sua característica mais interessante. No entanto só funciona quando a trama é perfeita e todas as cenas merecem referência, como em Pulp Fiction.

Meu top five de cenas preferidas, em ordem:

1. A citação de Samuel L. Jackson e toda a sequência dos dois matadores na casa dos jovens que precisam ser assassinados. Vejo e revejo com imenso prazer.

2. Maria de Medeiros e Bruce Willis conversando. Ela esqueceu o relógio, ele fica puto mas tenta se controlar, ela pede para ele voltar logo (blueberry pie). Corta para ele xingando a menina no carro.

3. John Travolta e Uma Thurman na lanchonete. Incluindo o concurso de twist e a participação especial do incrível Steve Buscemi.

4. John Travolta e Samuel L. Jackson no carro, falando sobre as diferenças da Europa e EUA.

5. John Travolta e Samuel L. Jackson no carro, discutindo o milagre de terem sobrevivido até que o Vincent atira no rosto de Marvin, sem querer. (oh, man, I shot Marvin on the face!)

Claro que muitas cenas ficaram de fora, caso contrário não faria sentido fazer a lista. Muitos criticam a violência desnecessária do filme (especialmente desta última cena que elenquei, dos miolos espalhados pelo carro). Muitos criticam a banalização da violência. Mas muitos outros adoram o humor, eu incluso, gerado por todo esse sangue jorrado. Devo admitir que gostava mais. Não sou fã de seu último filme (Bastardos Inglórios) e prefiro a segunda parte de Kill Bill (menos sangue e mais cinema).

Ainda tem as participações dos também geniais Harvey Keitel e Cristopher Walken. Enfim, um filme recheado, lotado de boas informações, perfeito a cada instante, referência para muitos, diálogos inesquecíves, quotes inesquecíves, trilha inesquecível. Inesquecível.



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Cena do youtube:

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Próxima semana:
Ventilador de teto e helicópteros.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Paris, Texas

Filme: Paris, Texas
Título Original: Idem
Diretor: Wim Wenders
Atores: Harry Dean Staton, Natassja Kinski, Hunter Carson
Ano: 1984
País: EUA, Alemanha


Vale acrescentar à lista de créditos básicos do filme à inesquecível e irretocável trilha sonora do Ry Cooder (um gênio explorador de novos sons pelo mundo, responsável, ao lado de Wim Wenders, por redescobrir a turma do Buena Vista Social Club).

O deserto e a guitarra de Ry Cooder iniciam o filme em uma sequência magnífica (abaixo no youtube). A primeira vez que tive contato com um deserto, ao vivo, tive uma sensação difícil de explicar. Trata-se de uma paisagem que nos torna ínfimos, inúteis, dispensáveis. A imensidão da natureza e sua beleza nos forçam reflexões. Já a janela do prédio vizinho ao meu não me oferece reflexão alguma, a não ser quando sou obrigado a participar das incríveis discussões familiares, na mesa de jantar.

Mas a impressão inicial, que fica marcada na minha memória, passa no filme. Travis, personagem principal errante do deserto, é resgatado por seu irmão e se vê pronto para enfrentar todo o passado do qual fugiu. Excelentes personagens e atores, o filme tem uma dos diálogos mais fodas da história, de Travis e sua ex-mulher, interpretada por Natassja Kinski, através de uma cabine espelhada.

Há muito sofrimento não dito e mágoas não explícitas nos ambientes aos quais Travis retorna, no entanto ele percebe que o amadurecimento de seu espírito, causado através de muitos espinhos, lhe dá uma nova visão sobre os mesmos fatos. Sua relação, portanto, com tudo, carrega novos valores e novos sentidos, como se tivesse morrido e voltasse a ter vida.

Hoje e, em especial neste fim de semana, uma expressão que foi discutida e que me marcou muito, foi "deserto eloqüente", referência feita por um sábio rabino ao meu falecido e inspirador avô. E é esta a perfeita analogia de Paris, Texas. Disse o rabino: a origem da palavra "deserto", em hebraico, é a mesma da palavra "falar", embora possam parecer distantes de sentido, já que no deserto nada se ouve, a não ser o silêncio. Mas deste silêncio pode-se ouvir muito mais sentido do que falas que nada dizem.



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Próxima semana:
Ezequiel, 25;17

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Pagador de Promessas


Filme: O Pagador de Promessas
Título Original: Idem
Diretor: Anselmo Duarte
Atores: Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Geraldo Del Rey, Othon Bastos
Ano: 1963
País: Brasil


Depois de muitas referências dos filmes que coloquei até agora, vem esta obra prima brasileira, a única vencedora da Palma de Ouro em Cannes e que traz muitos dos elementos de outros filmes que falei aqui. A começar por seu estilo, realista, do sofrimento a última consequência e da perseverança de se conquistar seu objetivo. Mais parece um filme italiano, como Ladrões de Bicicleta e A Terra Treme.

Leonardo Villar faz Zé do Burro, que carrega uma cruz gigante para as escadarias de uma igreja, como promessa que fez. A escadaria é novamente um personagem importante, assim como em Encouraçado Potemkin. Com o objetivo simples de entrar dentro da igreja com sua cruz e com um obstáculo difícil de ultrapassar, que é o padre com seus pequenos poderes, o mundo acontece ali.

Pouco importa o motivo que levou Zé do Burro a fazer a promessa. O que interessa são as diversas atividades que ocorrem externas ao centro da trama. Ele é banido pelo padre, traído pela mulher que levou consigo, ora caçoado pelo povo, ora admirado e, mais adiante, encorajado. Sua atitude de simples obstinação e persistência o transforma em herói e modelo para os demais. Mas se trata apenas do ingênuo e frágil e simples Zé.

Todos querem tirar proveito do homem, tolo, todos querem ganhar alguma coisa, fazer um dinheiro, ganhar uma reportagem (cena exclente no youtube abaixo), roubar sua mulher, vender pastel. O Brasil tem muito disso, me lembra também aquela música do João Bosco, De Fente pro Crime (também coloquei a música no youtube abaixo).

No meio do rebuliço do cinema novo, O Pagador de Promessas saiu da linha do cinema real e alternativo brasileiro, sendo mais clássico. Mas foi perfeito em sua proposta. Com excelente atuação, fotografia, direção e enredo, me agrada muito mais que os filmes de Glauber e companhia (uma blasfêmia no meio cinematográfico cult). Mas calma, ainda há um filme do cinema novo que conseguiu entrar aqui e aparecerá mais para frente, por se tratar de uma obra prima: Macunaíma.






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Semana que vem:
Há muito sobre o que se pensar no deserto. E ao sair dele.

sábado, 1 de maio de 2010

Maio - Os palmas de ouro

Dos cem filmes que mais gosto, dez são vencedores da Palma de Ouro, em Cannes. 10 de 100. Ou seja, 10%. Não poderia ser muito mais, pois é uma premiação que só acontece desde 1955.

É nítida, portanto, minha relação próxima com os juris de Cannes, ou por um tipo de cinema que tanto eles como eu gostamos de ver. Poucas vezes o selo deles me foi decepcionante (aconteceu quando o Tarantino presidiu o juri e premiou o fraco filme do Michael Moore - mas de importância política - Fahrenheit 11/9). Também quando venceu o filme O Pianista, do Roman Polanski e que o pessoal não ficou muito feliz.

Portanto os próximos dois meses serão dedicados à estes filmes. Há também alguns maravilhosos que não entraram na minha lista, lembrando ser ela totalmente pessoal, individual e intransferível. O vencedor deste ano, A Fita Branca, o romeno 4 meses 3 semanas e 2 dias, o belíssimo O Piano, que eu preciso rever, Viridiana, do Buñuel e outros que valem como uma lista de indicações paralela, pois eu também não vi alguns.

Hoje em dia é possível ver em alguns filmes características que o definem pelo estilo do festival que ele quer ganhar, ou do público, ou da crítica ou da grana. Cannes é mais do estilo cãmera na mão, cortes secos, histórias pesadas, sem trilha sonora, mais naturalistas, que colocam o dedo na ferida. Esta é a receita. O resto é intuição. E são poucos os que têm isso, que diferencia os inovadores dos copiadores.

Neste mês de maio, um filme brasileiro e quatro americanos, ou ao menos que se passam nos Estados Unidos. Filmes variados, discutem a conquista, a desesperança e a violência, muita violência em diversas carapaças. E diretores clássicos, mestres, fodas.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ladrões de Bicicleta


Filme: Ladrões de Bicicleta
Título Original: Ladri di Biciclette
Diretor: Vittorio De Sica
Atores: Lamberto Maggiorani e Enzo Staiola
Ano: 1948
País: Itália



O princípio é simples: até que ponto o homem aguenta viver na pobreza? Sob influência de diversos movimentos políticos e sociais e da combinação desses temas com a arte (considerando que o filme é do mesmo ano de A Terra Treme), o neorealismo italiano estava fortemente marcado pelas dificuldades e sofrimento encontrados na pobreza e os conflitos gerados por esses sofrimentos. Aqui, acrescenta-se ainda a relação de pai e filho, sempre muito marcante e emocionante.

Vemos a honra do pai em questão e o maior conflito que o aflige é se deve sofrer com a vergonha de não poder dar nada a seu filho ou correr o risco de ser pego como ladrão, para mostrar a ele que ao menos alguma coisa ele consegue, que sua pobreza não é tão vergonhosa.

De chutar o estômago da alma, este filme não é recomendável para qualquer dia, mas imprescindível para todos os outros. Ou seja, somos pessoas diferentes, nós que temos dentro de nós a vivência que nos proporciona o filme.

Na cena do youtube que eu escolhi, coloquei um momento de alegria (ao menos para quem o vê à parte do todo, pois no conjunto percebemos tratar-se de uma alegria sofrida). Mas é sem dúvida a angustiante seqüência do roubo da bicicleta que fica marcada como uma cena para a memória.

Filmado há mais de sessenta anos atrás, o que realmente me dá amargura e desespero é ver como o cinema é incompetente como arma de mudanças estruturais da sociedade, pois as cenas continuam muito comuns, não sei se naquele mesmo espaço, mas em muitos outros.

Apesar de datado, o registro cinematográfico torna o conflito eterno e insolúvel. Aquele pai estará sempre no mesmo momento de desespero e confusão, da mesma forma pobre, da mesma forma sem alternativas. E assim foi quando o filme pela primeira vez foi exibido, quando eu o assisti pela primeira vez, nos meados dos anos 90 e continua sendo e sempre será. Muda apenas a relação daqueles que o vêem e de sua respectiva situação social e cultural.

Creio ser comum ter pensamentos como os que eu tive, de indignação sobre a condição humana, em um primeiro momento, de visualização de um mundo melhor e possível e, infelizmente, de uma incapacidade de mudar uma vírgula. No máximo o poder de substituir um ponto final por uma vírgula, quem sabe,



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Semana que vem:
Com todas essas referências, sofrimentos e escadas, é hora do Brasil carregar sua cruz.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Encouraçado Potemkin


Filme: Encouraçado Potemkin
Título Original: Bronenosets Potyomkin
Diretor: Sergei Eisenstein
Ano: 1925
País: Russia


Qualquer pessoa que saiba quem é Eisenstein verá este post com certo preconceito, cerrará os olhos, esticará os lábios e pensará: "algum dia eu vejo esse aí".

Mas qualquer pessoa que gosta de montagem, precisa agradecer ao construtivismo russo, a formação ideogrâmica de conceitos a partir da contraposição ou união de imagens.

E qualquer pessoa que filme uma escadaria estará fazendo uma referência involuntário à cena da escadaria de Odessa, em Encoraçado Potemkin.

Quando o cinema ainda era novo e muito se experimentava, o mundo menos globalizado, os filmes americanos ainda conquistando seu mercado interno e não determinando os padrões universais, era uma época em que a montagem era a grande arte dentro de um filme. Por mais que técnicas semelhantes fossem utilizadas para que os fotogramas criassem a impressão do movimento, os russos trabalhavam outras questões. Pouco importava à Eisenstein o realismo e a continuidade das ações de seus filmes, e sim as sensações que transmitiam.

Encouraçado Potemkin tem tese clara a defender, ao retratar uma revolta de marinheiros maltratados e oprimidos e toda a tentativa de calar a voz do povo. Não esconde que quer passar a sensação de inconformismo com as injustiças e desigualdades e a grande repreensão à liberdade de expressão, efeito que depois vira contra o feiticeiro (na União Soviética stalinista). E a todo momento exalta o poder do coletivo colaborando por um objetivo comum.

No entanto, analisando com maior distância da forte impressão que este filme me causou na faculdade, é possível compreendê-lo com uma estrutura bem semelhante do cinema clássico, com apresentação, conflitos e clímax - que é a cena da escadaria (não a toa cultuada, porque é uma cena do caralho, com o perdão da palavra).


Torrent: download aqui
(Não tenho certeza quanto a confiabilidade desta versão - tudo parecia bem até que uma bandeira levantada na haste está colorida de vermelho. Esquisito.)

Legenda em inglês: download aqui
(não achei em português e essa ainda precisa de ajuste de alguns segundos para sincar certinho, se alguém tiver melhores links, me passem)



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Semana que vem:
Sofrimento por coisas tão simples da vida, como balões, peixes ou bicicletas.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Anjo Exterminador


Filme: O Anjo Exterminador
Título Original: El Ángel Exterminador
Diretor: Luis Buñuel
Ator: Enrique Rambal, Claudio Brook
Atriz: Silvia Pinal
Ano: 1962
País: México, Espanha



Buñuel é foda.

Está entre o meu seleto hall de referências e influências. Ao lado de algumas figuras peculiares, ele mostra uma visão pouco comum sobre as coisas

Estranhamento. É a primeira sensação ao assistir um filme dele ou de qualquer obra que derive do surrealismo. Mas comigo as estranhezas conversam melhor do que as normalidades. Me inspiram Kafka e suas situações kafkanianas, Becket, Magritte, Andy Kaufman, David Lynch, Charlie Kafman, entre outros. Lynch diz que também não entende muitas das cenas que opta por colocar em seus filmes. E por que coloca? Porque ela cai bem ali, como uma sensação extraterrestre que faz com que aquilo faça sentido. O Castelo, de Kafka, é uma obra inacabada, mas trata-se de um dos melhores finais de livros que poderiam ter sido pensados. Os roteiros de Charlie Kaufman, aos quais voltarei mais tarde, também trabalham com conceitos de absurdos transformados em cotidiano. O absurdo é usado para nomear o Teatro do Absurdo, mas não encontro nome que conceitue todas essas artes e unifique essa ideia. A Arte do Absurdo, talvez. Os atores que trabalhavam com Buñuel, especialmente em seu curta surrealista Um Cão Andaluz (coloquei mais abaixo na cena do youtube), diziam que realmente não tinham ideia do que estavam fazendo, apenas seguiam as ordens daquele diretor maluco.

Isto tudo para justificar o fato de que eu não sei porque tenho tanto apreço por este filme, O Anjo Exterminador. Há um jantar, da burguesia, os criados da casa saem, fogem, como se algo estivesse para acontecer. O jantar acontece da maneira que conseguem improvisar os anfitriões, sem seus empregados. Quando chega a hora de ir embora, ninguém consegue abandonar a sala. Não ficam presos por algo explícito e lógico, simplesmente não conseguem sair, como se ali estivesse uma parede invisível. Passam dias ali, presos na sala e suas relações vão sendo desenvolvidas. É claro que a convivência muito intensa acaba criando alguns desconfortos. Até que entram alguns cabritos ali e "libertam" os burgueses.

Não sei dizer porque, mas é um tesão, sem sombra de dúvidas.


Torrent: download aqui
(com legenda)



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Semana que vem:
A escadaria eterna.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Gabinete do Dr. Caligari


Filme: O Gabinete do Dr. Caligari
Título Original: Das Cabinet des Dr. Caligari
Diretor: Robert Wiene
Ator: Werner Krauss
Ano: 1920
País: Alemanha




O expressionismo alemão foi uma época incrível do cinema mudo. O cinema ainda não tinha uma forma dominante, a força do cinema americano não fazia, ainda, com que outras cinematografia se tornassem alternativas. Os alemães assistiram aos filmes do expressionismo como a expressão dominante daquela época. Não iam contra a corrente, apenas pegaram um caminho distinto, muito interessante (e sombrio, também).

Algumas características tornam o expressionismo marcante: a luz, sombra e as formas dos cenários. Muito antes de Tim Burton, eles criavam um mundo a parte, que penetrava no imaginário alemão, com lendas locais e histórias sombrias. Os mais interessantes, em minha opinião, são Nosferatu e O Gabinete do Dr. Caligari. (inclusive valeria uma refilmagem, ou releitura)

Espécie de Frankenstein, ou O Médico e o Monstro, Dr. Caligari é um místico que chama a atenção com suas previsões macabras que se realizam. Durante a noite, Cesare, um sonâmbulo controlado por hipnose pelo Caligari, realiza suas previsões.

Mas o mais impressionante são os incríveis cenários deste filme. Destaque para a casa do Dr. Caligari, uma pequena casa distorcida. Por sua aparência externa, mais parece uma casa de bonecas, que nada cabe ali dentro. Mas pouco importa este realismo, que obviamente não é considerado. Parece que você está entrando dentro de um mundo criado por Dali, ou mesmo Picasso, com as formas cubistas. Cada cenário é merecedor de atenção e pode-se perceber referências a eles em muitos filmes que vemos hoje em dia.

Por isso, é um filme muito importante de se ver para quem gosta de cinema. E indispensável para quem faz cinema.


Torrent: Download aqui


(no youtube, trailer de uma versão interessante, com trilha e montagem não originais)


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Semana que vem:
Bom, vamos embora, o jantar estava ótimo. Ah, não, melhor ficarmos mais um pouco.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Abril - Quatro Clássicos

É necessária a calma. Para acompanhar o blog e os filmes que mais gosto, é preciso que se conheça a base, aqueles filmes que alguns vão considerar mais chatos, no entanto necessários. Este é um mês de se conhecer esses clássicos.

Quatro formas diferentes de se pensar cinema, quando o tempo era de se pensar cinema. Hoje, segue-se regras, modelos, mesmo que alternativos. Quando se foge do main stream se deseja Cannes. E é fácil de reparar que os vencedores mais recentes de Cannes, ou os melhores filmes presentes em festivais seguem uma linha alternativa. Que, aliás, gosto muito.

Mas houve um tempo em que os rumos do cinema eram artisticamente definidos. Que um acreditava no formato surrealista, outro no construtivista, expressionista, realista (os quatro presentes neste mês) e ainda havia os mágicos, os criadores da linguagem clássica, os loucos e os gênios.

Quando arte passa a ser entretenimento, todo este conceito acaba sendo relativizado.
Mas isso é outra história.

A cada segunda-feira de abril, um clássico que me influenciou e que influenciou muitos dos outros filmes desta lista, de tal forma que se tornam imprescindíveis.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Stranger Than Paradise


Filme: Stranger Than Paradise
Título Original: idem
Diretor: Jim Jarmusch
Atores: John Lurie e Richard Edson
Atriz: Eszter Balint
Ano: 1984
País: EUA




Jim Jarmusch é um de meus diretores prediletos. Tudo que ele faz é carregado de um estilo próprio que eu não sei ao certo de onde vem, um tempo incomum das cenas, um certo desconforto, algo que me atrai, não sei bem o que.

É possível teorizar em cima de sua cinematografia e dizer que seu principal tema é a tal da "incomunicabilidade". Presente desde Antonioni a Kar Wai, esta temática está sempre descaradamente presente nos filmes de Jarmusch, nos quais sempre há um estrangeiro, de outra língua, de difícil comunicação (ou nenhuma como o sorveteiro francês de Ghost Dog). Há o italiano em Down by Law, o índio em Dead Man, a família etíope em Flores Partidas e a avó (ou tia) e da prima húngaras em Stranger than Paradise.

Mas o estrangeirismo das personagens é a incomunicabilidade levada ao extremo, pois a falta de comunicação já está presente nos personagens, sejam eles de qualquer origem. A formação básica do filme são três personagens, John Lurie, seu amigo e a prima húngara. Eles viajam para visitar a tia (incrível personagem). E aí está colocada a história. O resto é desimportante. A bem da verdade, até esta história não interessa. O que importa é o modo como se relacionam e o modo como Jarmusch retrata.

Creio que a alma underground de Nova Iorque também tem importante influência neste filme e em muitos americanos independentes, como os primeiros do Scorsese. Abaixo, na cena do youtube, deixei uma ceninha muito interessante, que diz mais do que eu conseguirei expressar. A prima está no apartamento apertado e bagunçado ouvindo uma música. O enquadramento parece um pouco esquisito, chega John Lurie, desliga o som e dá um presente, meio sem jeito. É um vestido que nada tem a ver com o gosto dela, nem o dele. Mas, enfim, ele cumpriu o seu dever de bom anfitrião.

Como a maioria dos filmes que eu gosto (estou percebendo isso aqui), há aqui um humor sutil muito bom. Daqueles que o cara, muito cult intelectual, pode te xingar no cinema caso você ria da cena, como se você estivesse ofendendo a beleza da introspecção pós-gunteriana, acadêmico alemão que explicou a identificação dos indivíduos em torno de uma conjuntura nacional (um pássaro acaba de morrer).

Tem algumas pessoas que conseguem realizar obras que parecem feitas para conversar com você (comigo, no caso). Clarice Lispector, Kafka e Jim Jarmusch são exemplos disso.

Torrent: download aqui
Legenda: download aqui



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Semana que vem:
Luz e sombra. E cenários distorcidos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Estréia Tulpan nos cinemas

Nesta sexta-feira estréia um filme desta lista, que nunca achei que fosse passar novamente por aqui, Tulpan.

Já o pensava como uma das relíquias deste blog e das dificuldades que teria para encontrá-lo.

Ele está planejado para entrar aqui no blog daqui bastante tempo, ainda, mas tem estréia nos cinemas paulistanos nesta sexta-feira, 26/03.

Assisti este filme do Cazaquistão na mostra de 2008. E é lindo.

Mais informações:

segunda-feira, 22 de março de 2010

Antes do Pôr do Sol


Filme: Antes do Pôr do Sol
Título Original: Before Sunset
Diretor: Richard Linklater
Ator: Ethan Hawke
Atriz: Julie Delpy
Ano: 2004
País: EUA, França


Existem dois tipos de pessoas no mundo, os que gostam deste filme e os que não gostam. Não que eu tenha visto muitos desta segunda espécie. Excelente para conquistar mulheres, porque não há uma que não se identifique com as neuroses e desesperos da personagem de Julie Delpy, por quem sou terrivelmente apaixonado. Ainda nesta introdução ainda vale lembrar que este filme me introduziu Nina Simone, minha musa inspiradora.*


Ao mesmo tempo despretensioso e ousado, Antes do Pôr do Sol é um filme maduro, que veio como uma luva para o momento em que vivia quando o assisti pela primeira vez, no cinema. É a sequência de um outro filme, chamado Antes do Amanhecer, mas não há comparação possível entre os dois. A diferença de qualidade entre os dois filmes, separados por 9 anos, é comparada a diferença de maturidade dos personagens, dos atores e da própria direção de Richard Linklater.
Em cima apenas do diálogo de dois jovens que passeiam por Paris, não há um momento desnecessário no percurso, não há um desvio, não há uma vírgula a se corrigir. Eis um filme que eu poderia ter feito - e adoraria ter feito. Devia ter feito.

Percebo agora certa semelhança na colocação deste filme aqui, logo de cara, com Uma Mulher é Uma Mulher, pois nos dois, o que mais me atrai é a personagem feminina. Aqui, Julie Delpy faz uma mulher perto dos trinta com seus conflitos pertinentes a idade e a incapacidade de conseguir um relacionamento maduro. Os diálogos, especialmente os que vem dela, são perfeitos. Ela finge que não se lembra tanto da relação que tiveram no passado, finge que não se importa, finge que está bem, mas desmonta quando eles estão no carro. Fala sem parar, vomita mil pensamentos presos e travados e chora. Ah, esses seres extra-terrestres - pensa o Ethan Hawke e olha para ela com um sorriso inevitável.

E o final, em seu apartamento, talvez entre em meu top five de finais de filme. Mas este só vale assistindo. Deixo abaixo uma pequena valsa, cantada pela musa Julie Delpy.

*Obs. recomendo os dois discos Antologhy, de Nina Simone, pois a musa fez algumas algumas bobagens por aí. Grandes amigos meus já me xingaram e quiseram me empurrar seus discos dos anos 80.

Torrent: download aqui


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Semana que vem:
Três personagens que não combinam e uma avó húngara.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Terra Treme


Filme: A Terra Treme
Título Original: La Terra Trema: Episodio del mare
Diretor: Luchino Visconti
Atores: Não atores que atuam sobre suas vidas
Ano: 1948

País: Itália



Existem muitos gêneros que eu gosto e seria muito difícil eleger um como o meu preferido. Existem muitas escolas cinematográficas que me agradam. Aliás, escolas que pregam determinada forma de se fazer cinema geram resultados sempre muito interessantes. Mas não consigo definir também uma como predileta.

Mas ao fazer esta lista de filmes, é perceptível que os italianos costumam me agradar mais. Há uma estética que surge na Itália que estará muito presente nesta lista, inclusive em filmes não italianos. Há uma alma que vêm, mais especificamente, da Sicília, que motiva os cineastas italianos a explorar o que há de belo e forte na pobreza da sua ilha sulista.

A Terra Treme é o ponto de início desta navegação e por isto entra logo aqui, de início. Revi o filme para poder escrever aqui e devo admitir que a narração, que eu não lembrava de existir, me incomodou, por ser muito incisiva sobre a interpretação das cenas. Ela toma um ar de dona da verdade e narra o sofrimento, explica o sentimento e as injustiças e dita os tempos das ações e diálogos.

Mas os personagens, os ambientes, os diálogos, a realidade com que toda a encenação ocorre é o que mais importa. Os atores são os próprios vivenciadores daquelas experiências. Antonio é Antonio, Rosa é Rosa, Nicola é Nicola. São pescadores, explorados pelos comerciantes locais, nunca organizados e, como diz a narração, uma tradição passada de pai para filho naquela comunidade.

O avô da família é um personagem que eu gosto bastante, apesar de pouco aparecer. O jovem neto que voltou do exército mais revoltado com aquela situação fica indignado com a exploração e o avô diz, ao modo siciliano: as coisas são assim e sempre foram e está tudo bem deste jeito. Me lembra um pouco o meu avô.

A "velha história" da exploração do homem sobre o homem, como diz o texto inicial do filme, se repete em diversos filmes neo-realistas italianos, em filmes brasileiros, americanos, iranianos. E onde quer que haja a mesma situação, haverá alguém se inspirando artisticamente (e criticamente). A tristeza e o sofrimento de um mundo ilógico e incompreensível, de um mundo que poderia ser mas não é, de um mundo duro, são as inspirações destas artes. Pois a solução para um mundo justo e bom parece tão ao alcance das mãos: basta que todos sejam bons e que haja amor entre as pessoas.

Mas, infelizmente, o mundo que sonhamos somos incapazes de realizar. Até mesmo os que chegam próximo do poder de transformação, pior ainda nesses casos, são incapazes de virarem a chave, ou de destruirem o anel. A força da injustiça dos sistemas parece maior do que toda a boa vontade de bons humanos.

Enfim, trata-se de um filme básico para a vida, para a compreensão do mundo a nossa volta, para o entendimento de determinada visão de mundo - não esquecendo da data histórica em que o filme foi feito - e, especialmente, é essencial para melhor assistir muitos outros filmes que por essa lista passarão.


(com legenda em português)




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Semana que vem:
um casal conversando. Só isso o filme inteiro. Mais um monólogo da mulher. Como falam essas mulheres! Mas como são lindas, especialmente essa.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Era Uma Vez no Oeste



Filme: Era Uma Vez no Oeste
Título Original: C'era una volta il West
Diretor: Sergio Leone
Atores: Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards
Atriz: Claudia Cardinale
Ano: 1968
País: Itália, EUA


Quando alguém me pergunta o que é decupagem, eu respondo: Sergio Leone, mais especificamente, Era Uma Vez no Oeste. Cada corte do filme, a mudança de planos, o tempo entre cada um, o tempo dos diálogos e o desenvolvimento de cada cena é perfeito.

Este é um filme que poderia ser assistido por sequências. Como um livro em que cada capítulo funciona por si só (Vidas Secas, por exemplo). A sequência inicial - que eu coloquei no vídeo do youtube abaixo - é de uma maestria incrível. Apenas no ritmo dos cortes e de cada ação cria-se um clima de tensão com humor. Ou seja, faz-se com a decupagem a sensação que se quer passar.

Observação: decupagem é a maneira como uma sequência é pensada, dividida por planos. É possível usar diversos recursos para a criação de um clima, como o Woody Allen usa diálogos, Tornatore usa trilha sonora, Bergman usa expressões dos atores e Sergio Leone usa um conjunto deles que o torna brilhante.

Mas o que faz esse filme diferente? Pois existem muitos faroestes que procuram o mesmo espírito e não encontram. Fico pensando nessa resposta e não a encontro com facilidade, mas creio que se trata da maneira como o filme se enxerga. Ou seja, aqui existe uma grande consciência de que se trata de um filme, de uma grande encenação, de uma dança. Outros, que se levam muito a sério, acabam ficando chatos. A primeira vez que eu vi este filme, um pouco inesperadamente, não consegui parar de rir.

No final desta sequência inicial, o trem passa e ninguém desce. Os três pistoleiros viram as costas para partir quando ouvem a gaita de Charles Bronson. Lentamente se viram e lá está ele.
- Onde está Frank?
- Frank nos enviou.
- Vocês trouxeram um cavalo para mim?
Eles dão uma risadinha, só têm três cavalos.
- Bom, parece que nos faltará um cavalo.
- Não... acho que vocês trouxeram dois a mais...
tiros

Enfim, humor peculiar. Um tesão.

(já vem com váras legendas, inclusive em português, só tem que extrair do arquivo compactado)
Obs. este é um filme que vale ter em DVD, pois ele sempre está a venda, bem barato nessas lojas estilo Americanas.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma Mulher é Uma Mulher



Filme: Uma Mulher é Uma Mulher



Título Original: Une Femme est Une Femme
Diretor: Jean-Luc Godard
Atriz: Anna Karina
Atores: Jean-Paul Belmondo e Jean-Claude Brialy
Ano: 1961
País: França

O que me encanta neste filme e na maioria dos filmes de Godard é a liberdade que ele tem para fazer cinema. Faz do jeito que quer, meio improvisado, meio sem roteiro, meio que um brasileiro jogando futebol. Usa e abusa dos recursos de linguagem e gosta de desafiar as regras. Não se pode quebrar o eixo. Ah, é? Não se deve usar cortes entre imagens muito semelhantes. Ah, não? Os atores nunca devem olhar para a câmera! Nunca?

Regras são motivações para Godard. E Uma Mulher é Uma Mulher é, na minha opinião, sua obra-prima. Não que os planos sejam extremamente elaborados, poéticos, enquadrados de forma a criar uma estrutura narrativa, etc. Pelo contrário, há no ar deste filme um clima de auto-consciência inexplicável. Os três atores brincam em sintonia, passeiam pelos espaços e entre a câmera, são parceiros ali da forma como nos passam esta conexão. Exemplo de cena brilhante. A menina (Anna Karina) está fritando um ovo, toca o telefone, ela taca o ovo pra cima, vai atender o telefone, fala, conversa, briga, depois volta e pega o ovo caindo.

Ainda há, na temática, algo que muito me interessa: a mulher. Muitas são as homenagens artísticas a esses seres extra-terrestres muito interessantes, mas este é demais. Especialmente porque a mulher, Anna Karina, é incomparável. Desde suas pequenas ações e reações ao modo como age a personagem, suas contradições mais bobas, suas reclamações mais tolas. É uma homenagem a um lado feminino pouco relacionado, uma homenagem a pequena garota com pequenos desejos, ao lado frágil e tolo da mulher, e não a uma mulher forte, governanta da casa e braço direito do marido.

Certa vez, li a sinopse do filme em um guia de cinemas de São Paulo, pois o filme iria passar em uma mostra ou algo do gênero. A sinopse era um tanto quanto ridícula. Algo como uma garota que quer engravidar e, para tal, faz de tudo para convencer o marido de aceitar a criança. Eu, que geralmente dou muito mais peso a análise de um roteiro do que outros fatores, devo assumir que este não é o forte aqui. Aliás, a falta de roteiro é que ganha força e sobrepõe uma certa falha estrutural no sentido mais clássico. Cada cena e cada relação de personagens e cada piada e cada momento tem muito mais força do que o conjunto, que não precisa ser levado muito a sério.

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(já vem com legenda em inglês e italiano)
Áudio original: Francês



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