Título Original: Être et Avoir
Diretor: Nicolas Philibert
Atores: Georges Lopez
Ano: 2002
País: França
Tenho planos de fazer um documentário ao estilo de Ser e Ter. O que significa isso? Uma câmera reflexiva que permite o tempo a criança, tão acostumada com a câmera a ponto de que tenha um convívio natural. As crianças são realmente incríveis. Existe um projeto, chamado "Seven Up" de um documentário feito na Inglaterra a cada sete anos. O primeira, na década de 60, se não me engano, era com crianças de sete anos. Genial também.
Em Ser e Ter há, ainda, este conceito que dá o título do filme. O documentário registra um ano na vida de uma escola rural, que tem estilo característico: trata-se de um tipo específico de escolas francesas, já não muito comuns, na qual apenas um professor dá aulas para diversos alunos de diferentes idades. Ou seja, todos os alunos da região, até completarem idade suficiente para frequentarem o primário, têm aula com este professor.
Os documentários têm me encantado cada vez mais, pois trazem uma linguagem mais livre, mais aberta, mais inesperada e, inevitavelmente, mais real. Temos um grande apreço pelo real, especialmente quando é tratado como tal. Se no filme Nenhum a Menos a atração cai sobre o menino problema da sala, aqui não é diferente. O astro é Jojo (na foto), figura impagável. Toda cena em que está lá o astro pode-se esperar que virá coisa boa. Fica evidente como a câmera percebe rapidamente que onde está o menino problema está o interesse quando, no final do filme, completando-se o ciclo do ano, entram novos alunos e a câmera de imediato passa a acompanhar o menor dos meninos, que já sai andando pela sala, meio perdido, até resolver chorar, pedindo por sua mãe, sem ter ninguém para acalmá-lo.
As aulas passam por todos os temas desde francês até culinária e muito se aprende sobre este cultura rural da França. O garoto mais prendado, que não vai muito bem nas aulas de matemática, sabe cozinhar, andar de trator, trabalhar na roça. De uma aula de francês sai uma cena genial, que colquei no youtube. O professor está ensinando (e eu vou ter que traduzir) o feminino e masculino de amigo. Então dá o exercício em que todos têm que completar a frase: fulana é minha... fulano é meu... todos vão bem até que um deles resolve completar com colega, ao invés de amigo, sabe-se lá o porquê. E não há argumento que faça o menino mudar de ideia.
Há ainda a passagem do tempo e das estações, os pequenos detalhes e as pequenas cenas que fazem este filme grandioso. É interessante observar o estilo de documentário e como ele consegue criar uma narrativa a partir de um longo tempo de filmagem. Um primeiro recurso para isso é não se apegar a essa pasagem de tempo e tentar fazer um resumo de tudo que aconteceu. Se assim fosse, o filme não passaria de um grande clipe. O que ele faz é retirar trechos simbólicos, longos, de cada trecho. Também é uma forma de fazer o recorte. Em documentários, mais vale aquele que trata a parte pelo todo do que o todo pelo todo. Existe uma figura de linguagem para isso, mas não sei ao certo qual é.
Fico apenas com uma exceção, a entrevista. Há apenas uma entrevista no filme, com o professor. Por que, meu deus, por que?! Percebe-se que não é a praia do entrevistador, que não tira nenhuma informação útil e deixa o momento engessado, quebrando também toda a estrutura ausente da câmera. Apesar da cosciência da existência das câmeras, ê muito bom ver filmes documentais como se elas não existissem.
Uma cineasta brasileira, chamada Maria Augusta Ramos, dos filmes Juízo e Justiça faz isso muito bem, nestes dois grandes documentários observadores sobre nosso sistema judiciário.
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Cena do youtube:
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Próxima semana:
E as escolas brasileiras?
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