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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Nelson Freire


Filme: Nelson Freire
Título Original: Idem
Diretor: João Moreira Salles
Ano: 2003
País: Brasil

documentário




Nelson Freire é um documentário interessante em muitos aspectos. Em primeiro lugar, pela força que existe no cinema. Apesar de ser conhecido em um pequeno nicho, após o filme seu nome passou a ter um reconhecimento muito maior, ainda um nicho mas bem mais amplo. É claro que a família Moreira Salles tem grande influência sobre a cultura no Brasil, por isso é importante ser "escolhido" pelo João. O que ele abraça, vinga.

Mas é inegável que ele seja um dos maiores cineastas do país. Por isso me entristecem os boatos de que ele não deseja mais trabalhar com cinema. Ao menos não mais dirigindo. Suas obras tem claras referências globais. Não é um brasilianista. E essas referências transparecem no filme, são explícitas, tanto em Nelson Freire como em Santiago, ele usa trechos de filmes, referências para reflexões. Aqui, adoro o tímido músico mostrando um trecho de um filme de Errol Garner, jazzista tocando piano com alegria e liberdade. E Nelson Freire dirige a câmera para que filme a TV e não ele, e o câmera vai e volta, desafiando e obedecendo o personagem.

João Salles diz que acompanhou Nelson Freire por dois anos antes de entrevistá-lo. Um feito incrível para conseguir quebrar a timidez do pianista. A intimidade fica clara quando um repórter francês está fazendo uma matéria idiota para uma TV local e pergunta algo como "você acha que vir de um país quante como o Brasil muda o seu jeito de tocar?". Ele desvia o olhar procurando a câmera de João, como quem diz "ta vendo o que eu preciso aguentar?".

Um personagem tímido e contido para um documentário como esse já merece respeito. Mas o que realmente me agrada é a montagem do filme. É simples, tranquila, tímida e contida como o seu personagem. E brilhante. Devo admitir aqui que copiei várias coisas para um filme que fiz, chamado "Arquivo Familiar".



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Próxima semana:
Faroeste divertido e inesquecível.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dogville

Filme: Dogville
Título Original: Idem
Diretor: Lars Von Trier
Atores: Nicole Kidman, Paul Bettany, Harriet Anderson, Ben Gazzara, Phillip Baker Hall, James Caan
Ano: 2003
País: Dinamarca (e muitos outros países)




Dogville foi uma das minhas grandes experiências cinematográficas de meu tempo. Daqueles filmes que surgiram na minha época e que eu presenciei as maravilhosas reações do público. Alguns indignados, outros maravilhados, outros apenas com sono. Aconteceu com Magnólia, Cidade dos Sonhos, Arca Russa, Caché e Dogville.

Me encantou desde o primeiro instante, na qual um narrador irônico (eu adoro ironias), começa a explicar o "conto de fadas" que veremos. E a câmera começa de cima da cidade desenhada no chão. Um estranhamento direto, sem mais delongas.

A história é cruel. Nicole Kidman - escolha perfeita - chega na cidadezinha pequena em fuga. Temos todos aqueles clichês positivos de uma pequena vila: o bom humor, a receptividade, o acolhimento, os pequenos cuidados, o jardim, os doces, as bonecas.

A estrangeira entra neste mundo em busca de apoio. Não sabemos do que. Eles cedem sua afetividade. Mas cobram, cada vez mais, por sua pretensa bondade. Ora pedem seu trabalho, ora seu corpo. Aos poucos a escravizam com crueldade. E a estupram naquela cidade sem paredes, o que é uma imagem incrível, ao mesmo tempo que é horrível.

Ela se torna a perfeita Geni. Fácil de culpar, fácil de cuspir e pisar. E os habitantes de Dogville mostram que podem muito bem serem cruéis na mesma proporção que podem ser acolhedores. E que são cheios de podridão em suas profundezas.

Lars von Trier vendeu este filme como sua visão dos Estados Unidos. Talvez estivesse procurando uma polêmica, mas creio que atingiu muito mais além. Fez uma fábula, se é que podemos chamá-la assim, sobre os homens. Especialmente para esses, que não tem como se esconder da sociedade opressora. Que não tem paredes, nem multidões para se perder. Que pecam e não são perdoados jamais.



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Próxima semana:
Drinks, piscina e um clima estranho.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As Bicicletas de Belleville

Filme: As Bicicletas de Belleville
Título Original: Les Tripettes de Belleville
Diretor: Sylvain Chomet
Ano: 2003
País: França

animação



Não sei porque tenho tanto apreço pelo mundo azul.

E Bicicletas de Belleville é um desses enaltecedores dessa alma romântica, sofredora, de pneumonias e cirroses. Exagero. É apenas um filme triste.

Mas de perfeita consciência de seus momentos cômicos, construção de personagens caricatos (embora mais próximos da realidade) e excelente timing cinematográfico. Que quero dizer com isso? 

Quase sem diálogos, o filme consegue dramatizar uma história simples e bela, sobre um rapaz que não encontrava em nada algo que o animasse a celebrar a vida. Esperava o tempo passar, assim como o trem que com a modernidade chegou a sua janela. A avó, preocupada, lhe deu um piano, que não o entreteu. Lhe deu um cachorro, que logo se entediou junto com o menino. Foi a bicicleta que trouxe algum sentido a vida do menino. 

O desenho dos personagens e sua elaboração parecem uma pintura que foi sendo lapidada com o tempo, pois chega a uma apuração de traços incrível. Merecem destaque a avó, baixinha e persistente; os músculos do rapaz; os capangas guarda-costas, que são praticamente dois quadrados; o trio de cantoras; as mulheres gordas americanas e seus maridos ricos; e em especial o excelente garçom, se dobrando aos clientes com devoção. Em resumo, tudo constrói a obra-prima.

Coloco esse filme aqui, no mês de férias, como se fosse uma diversão infantil. E creio realmente que pode ser. O tipo de obra para se ver aos dez anos, aos dezesseis, aos vinte e dois, aos trinta, aos quarenta e cinco, cinquenta, sessenta, setenta, oitenta e, por que não, aos cento e tantos?



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Próxima semana:
Animações japonesas para encantar a alma.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Corporação

Filme: A Corporação
Título Original: The Corporation
Diretores: Mark Ashbar e Jennifer Abbott
Ano: 2003
País: Canadá, EUA


A escola brasileira de documentários ensina que a melhor forma de tratar um tema complexo e enorme, como a pobreza, a desigualdade de renda, a morte, a vida, o capitalismo ou as corporações, seria encontrar uma pequena história que possa ser universalizado. Desta forma, ao fazer um documentário sobre o Brasil, devo fazer um recorte minúsculo, de uma cidade, de um bairro, de uma casa. Como falei em Ser e Ter e Pro Dia Nascer Feliz, são documentários intimistas que fazem um recorte local para uma interpretação universal.

Já em A Corporação a ambição é maior. Busca-se explicar todo o sistema financeiro ocidental, ao qual estamos completamente entregues, com um recorte das corporações (que não é um corte pequeno). É evidente que, mesmo o maior dos documentários e o mais ambicioso terá algum recorte, alguma escolha de personagens, de histórias, de pontos de vista. Mas, se este documentário fosse feito seguindo os ensinamentos da escola brasileira, provavelmente a investigação seria feita em uma cidade pobre do Nordeste, com algum exemplo que aos poucos se torna evidente das injustiças sociais geradas por uma grande companhia do petróleo.

Enfim, voltando ao filme. Ele é extremamente competente em sua grande ambição. E tem muitos méritos nisso, pois, apesar da crítica áspera que faz ao sistema econômico, consegue abrir espaço para que todos os lados da questão se manifestem. Assim, não temos apenas os velhos críticos falando (como Noam Chomsky e Naomi Klein), mas também presidentes de grandes companhias, operadores do mercado de ações e inclusive uma coordenadora da indústria de brinquedos, que se coloca em posição complicada, ao elogiar os esforços de sua indústria para conquistar mercados, citando cifras bilionárias que gastam com publicidade para crianças. Em paralelo, uma outra mulher, crítica a esta mesma indústria, cita os mesmos dados para mostrar a impossibilidade dos pais comuns lutarem contra a propaganda que entra em suas casas.

A tese do filme é que uma empresa tem todas as características que damos a um psicopata social, se a tratássemos como uma pessoa. Nem mesmo os presidentes das grandes corporações concordam com as medidas que devem tomar como seus dirigentes. E por que as tomam? Porque quem manda é o mercado, são as ações e os acionistas. Na prática, o bom e velho dinheiro é o chefe.

Eu penso que esta realidade começa a mudar, aos poucos. A liberdade total entregue aos mercados gerou a crise dos EUA, onde foram gastos recursos suficientes para resolver o problema da fome, da deigualdade, das injustiças, do preconceito, das guerras e de tantos outros que podemos pensar aqui. Isto é, para não dizer nada mais, totalmente absurdo e intolerável. Ou, talvez, uma estupidez muito estúpida.

Existem outros modelos de desnvolvimento? Existem. Por que não mudamos para eles? Porque, infelizmente, nós somos muito lentos para promover mudanças estruturais. Temos que começar a falar desses modelos, para que alguns jovens cresçam com estas ideias e em algum momento de suas vidas possam aplicá-las ou ensiná-las. E para que elas possam ser aplicadas, aqueles que são muito velhos para compreendê-las devem morrer. De morte morrida, é bom deixar claro. Não estou propondo o assassinato das mentes estúpidas. Aliás, alguns propõe estes assassinatos e conseguem fazer com que as mudanças aconteçam mais rapidamente. Mas a democracia, sagrada, faz com que os processos lentos fiquem ainda mais lentos. E difíceis. Paciência.



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Próxima semana:
Os bastidores de uma campanha política.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Elefante

Filme: Elefante
Título Original: Elephant
Diretor: Gus Van Sant
Atores: John Robinson, Alex Frost, Nathan Tyson
Ano: 2003
País: Estados Unidos


Três cegos apalpam um elefante para tentar compreendê-lo. Um apalpa a tromba, outro a barriga e outro o rabo. Cada um ao seu modo compreende o animal de maneira diferente. Os três ficam com uma impressão do elefante sem compreender o que ele é em sua completude, algo muito fácil para quem enxerga.


E dizem que daí vem o título do filme, Elefante. Assim sendo entra, sem dúvida, na lista dos melhores títulos de filmes. Pois trata-se de um diretor que procura enxergar o todo através de uma das partes, mas não se cega em definir sua visao como sendo a única verdade.


O assunto é complicado: jovens em uma escola americana que resolvem atirar em colegas e professores e se matarem depois. Fato real que também inspirou o filme de Michael Moore, Tiros em Columbine, e que é bastante recorrente em escolas americanas. Por que? Não faço ideia. Michael Moore tenta explicar, já Gus Vant Sant tenta escutar, observar, analisar.


O filme faz um recorte em alguns dos jovens que ali estudam e permite que eles mostrem suas vidas. A escolha formal acaba sendo natural pelos longos e lindos planos sequencias. As câmeras acompanham os garotos com sensibilidade de lhes permitirem espaço, naturalidade, tempo. Em muitos filmes do Gus Vant Sant há essa liberdade temporal e espacial.


Me agrada o fato do filme não impor sua tese, sua opinião. Não julga ninguém, seja o menino popular ou o nerd (essas divisões que acbam realmente acontecendo nas escolas americanas). O filme é puramente reflexivo. Assim, são os pequenos detalhes que fazem a diferença, um pequeno gesto, uma palavra, um jeito de falar e de olhar.


Vou fazer uma interpretação arriscada de um trecho que particularmente me agrada. Em meio ao desespero na escola, quando a chacina já começou e o filme caminha para seu fim, somos apresentados a um novo personagem que dura apenas uma pequena sequência. Um jovem negro, acompanhado pela câmera, anda calmamente pelos corredores da escola, enquanto todos gritam e correm. Ele tem a postura do herói, que vem para salvar e mudar a história. Mas quando enfim está se aproximando dos matadores é percebido. Recebe um tiro e morre. Fim de sua participação. Aí talvez haja certa ironia, certo humor, de que não há heróis, de que as pessoas realmente morrem por muito pouco.


E fica a pergunta do por que. Por que isso acontece nas escolas americanas?
Como são as outras escolas do mundo? Isto seria um bom tema para os filmes do próximo mês, não?


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Próxima semana:
Escolas são zoológicos interessantes.
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