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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pântano

Filme: Pântano
Título Original: La ciénaga
Diretora: Lucrecia Martel
Atores: Mercedes Moran, Graciela Borges, Martin Adjemian, Leonora Balcarce
Ano: 2001
País: Argentina



Quando fui ao cinema ver este filme, na onda de cinema argentino, levei certo choque. Aquilo que eu via ali nada tinha a ver com a leveza e simplicidade do cinema de seus compatriotas. Pouco tinha a ver com qualquer coisa, era um filme estranho, diferente de tudo. Em alguns momentos me pareceu como uma novela mexicana, em outros como um filme de Antonioni (com devida adaptação cultural), ou de Todd Solondz.

A primeira cena é a que fica. Aqueles personagens bêbados na beira da piscina e o som das cadeiras arrastando. Em poucos planos entendemos a podridão do clima vivido por aquela família. A classe média sem querer falar, sem querer pensar, apenas enchendo a cara para passar o tempo.

A cena que coloquei abaixo, no youtube, é muito simbólica do que é o filme para mim. Um diálogo realista, meio truncado, meio incômodo, entre duas irmãs. Aos poucos os jovens vão entrando e dando mais alegria a cena e acabam todos dançando, fazendo com que a mãe, sempre bêbada e na cama, se divertisse.

Como sempre, gosto muito de relações familiares. Este lembra um pouco Festa de Família, no sentido de que todos acabam indo para o sítio, se encontrar. E as relações são nitidamente mais profundas e mais complexas do que podemos ver assim, como observador. As brigas e paixões estão todas ali, nessas relações. Mas o filme é ainda mais merituoso pela forma como nos mostra isso. A montagem e composição de elementos vale uma observação. Há algo sempre incomodando, há sempre um ruído. Seja uma televisão ligada, crianças falando alto ou um personagem cuja presença incomoda.

Pântano é um filme assim, me deixa sempre com uma pulga atrás da orelha. Por isso o adoro.




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Cena do youtube:


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Próxima semana:
Violência silenciosa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Felicidade

Filme: Felicidade
Título Original: Happiness
Diretor: Todd Solondz
Atores: Philpp Seymour Hoffman, Jane Adams, Dylan Baker, Ben Gazzara
Ano: 2001
País: EUA





Muitas das reflexões que faço na vida, especialmente na relação da sociedade com seus humanóides, mais explícito ainda no estilo de vida americano, está dito aqui. Tudo que posso dizer sobre isso, melhor dito por Todd Solondz.

 Em primeiro lugar, ele é irônico. Em segundo, ele usa humor negro. Em terceiro, ele diz, como Caetano: "de perto ninguém é normal". Felicidade! Brinca com seu título, contrapondo o que diz, sendo, no entanto, muito mais radical que Cartola, quando fez sua música "Alegria": "Alegria, era o que faltava em mim..."

A primeira personagem, chamada Joy (alegria), introduz o filme em uma cena terrivelmente brilhante. Essa atriz Jane Adams, aliás, tende a ser chamada para personagens desse tipo, meio deprês, mal sucedidas, com dificuldades em relacionamentos, um pouco esquisita. Faz papel semelhante na série "House" e no filme "Pecados Íntimos". É interessante contrapormos Felicidade a este último filme. Ambos tratam de uma mesma temática, embora um usa um espelho para reflexão, enquanto o outro usa uma cruz.

Ambos falam dessas intimidades duras, que ninguém gosta de ver, que muitos preferem usar peneiras com óculos e, no entanto, são disfarçadas nas aparências. Ambos tratam da pedofilia. E ambos tem uma trama multiplot (muitas histórias paralelas). Mas, admitindo que gostei bastante da minha analogia com o espelho e a cruz, aqui revelo o primeiro grande mérito de "Felicidade": não usar desta moral cristã como juiz, que é o que faz "Pecados Íntimos".

Enquanto Todd Solondz nos mostra a dura (talvez a mais dura já vista?) conversa do pai pedófilo com seu filho, em uma tentativa de se compreender, Todd Field mostra seu pedófilo mergulhando na piscina, de forma caricata, com um grande óculos de mergulho, para ver as crianças nadando. Os leitores do livro original que inspirou este filme repelem a cena passada para o cinema. Eu, particularmente, não li.

E assim se revela essa rede de intimidades infelizes, não necessariamente pecadoras. São relações de solitários, de insatisfeitos, de desencaixados, em uma sociedade que os esquece, os apaga e, em especial, incentiva o fingimento de que são (ou somos) felizes.

Por último, vale lembrar mais uma participação memorável de um dos meus atores prediletos: Phllip Seymour Hoffman.



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Próxima semana:
Hynkel e Napaloni.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Homem que Não Estava Lá

Filme: O Homem que Não Estava Lá
Título Original:The Man Who Wasn`t There
Diretor: Joel e Ethan Coen (Irmãos Coen)
Atores: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Scarlet Johansen
Ano: 2001
País: EUA





Não lembro com quem tive uma conversa certa vez, mas teve sim alguém que concordou comigo quando relacionei o livro O Estrangeiro, de Albert Camus com o filme O Homem que Não Estava Lá, dos irmãos Coen.

Mais uma vez, ao exemplo do filme da semana passada, considero esse a obra-prima dos irmãos Coen. Acompanho seus filmes, tendo visto quase todos e, apesar de recentes quedas, também mostram o quanto são bons ao fazer filmes como Um Homem Sério.

Bom, tanto no livro de Camus como no filme, o personagem principal tem como principal característica essa ausência. Eles não estão. Billy Bob Thornton é um barbeiro que vive de acordo com o que lhe é oferecido e esperado, sem querer aparecer demais, sem grande vibração ou aspiração. É pouco, aparece pouco, requer pouco.

Muitas vezes eu mesmo me sinto assim. Vivemos aquilo que devemos? Devemos algo? Somos destinados a algo? Devemos pensar em algo? Ou o melhor é simplesmente não pensar e “deixar a vida te levar”? Assim, ser e estar se tornam verbos que não se encaixam em um só, como o “être” em françês.

Você é, mas não está. Essa diferença pode parecer tola, mas tente explicá-la para aqueles que a língua impossibilita. Ou, no caso deles, como o uso do “wasn’t” no título original, permite ao menos outras possibilidades. Se, tirando o “there”, tivéssemos um título “The Man Who Wasn’t”, sua interpretação para nossa língua portuguesa seria completamente outra.

Enfim, ambos não estavam. Ambos se envolvem em um assassinato. Ambos têm facilidade para aceitar fatos que nos parecem absurdos. E nenhum deles luta por sua vida por uma vontade interna que os motiva, como seria de esperar de nossos exemplos de lutadores. Se lutam por algo é, no máximo, para que não os incomodem com perguntas cheias de “por quês”.

Por último, o filme ainda tem muitos outros méritos, mas a fotografia preto e branca, com referência explícita dos filmes “noir”, é perfeita. As nuância, as sombras, os vários planos de luzes. Lindo.



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Próxima semana:
Felicidade não se compra...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Viagem de Chihiro

Filme: A Viagem de Chihiro
Título Original: Sen to Chihiro no kamikakushi
Diretor: Hayao Miyazaki 
Ano: 2001
País: Japão

animação



Admito que sempre tive problemas com essa cultura japonesa que vem se tornando cada vez mais forte por aqui. Ao menos em São Paulo. Quadrinhos, anime, feiras de cos play, turma da mônica versão mangá e coisas do gênero nunca me animaram. Nunca gostei de cavaleiros do zodíaco, muito menos de Pikachu. Mas esse tal de Hayao Miyazaki é muito foda. Só vi A Viagem de Chihiro e Castelo Animado, ambos dirigidos por ele. Foi suficiente.

Embora eu ache o Castelo Animado mais bonito, é em A Viagem de Chihiro que ele faz uma obra prima. Sou apaixonado pela construção dos personagens, por seus pequenos detalhes e fértil imaginação. O filme começa bem realista: um casal está se mudando para uma nova cidade com a filha, que não está gostando da viagem. Mas uma mudança no caminho faz com que caiam em uma antiga ruína, onde Chihiro começa sua jornada sozinha. Trata-se, na verdade, de um castelo-spa, no qual a bruxa e seus funcionários recebem espíritos que precisam de um relaxamento. Tomam banho, recebem massagem e saem mais descansados.

Para sair de lá, Chihiro passa pelo clássico processo do herói. Passa de uma garota covarde há uma menina cheia de força de vontade e espírito batalhador. Conhece ali uma espécie de par romântico e em nome deste amor vende batalhas e obstáculos. Mas, de fato, nada disso tem importância diante dos pequenos detalhes do filme, dos pequenos personagens e seus trejeitos, suas profundidades e complexidades. 

Há aqui diversidade para todos os gostos. Eu tenho especial interesse em um espírito sem face, que não quer agradar ninguém que não seja Chihiro. Ataca a todos, come alguns e gera o pânico entre os funcionários do castelo-spa, e é Chihiro que o leva para fora e acompanha o espírito em uma viagem de trem que parece interminável. No fim o espírito encontra um lugar para ficar, mas o que realmente me agrada é a ausência de uma necessidade neurótica de explicações. Não sabemos por que veio, o que queria, quem era de fato, para onde vai. E não saberemos porque pouco importa. Isto pode parecer pequeno, mas não é. Revela uma angústia de perguntas e respostas que certos filmes e sociedades alimentam, e revela a inutilidade dessas perguntas e respostas na função de promover uma reflexão.




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(já vem com o arquivo de legenda) 



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Próxima semana:
All you need is love, pan pa ran pan pan.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Amélie Poulin

Filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
Título Original: Les Fabulaux Destin D`Amélie Poulain
Diretor: Jean-Pierre Jeunet
Atores: Audrey Tatou, Mathieu Kassovitz
Ano: 2001
País: França



Amelie Poulin foi uma explosão. Uma explosão de alegria que encantou as pessoas por todo canto. Os filmes de Jeunet, assim como os do Tim Burton, são fábulas escancaradas e bem assumidas. Mas entre todas elas, esta é a mais completa e bem resolvida. As milhares de referências e detalhes criam uma grande riqueza de um mundo a parte, o que as outras fábulas não tem a capacidade de alcançar.

Mas como e por que Amelie é tão diferente?

A narrativa de Amelie vem de um conglomerado de informações. Alguns foram até entrevistar o Jorge Furtado para saber se era plágio de Ilha das Flores, o famoso curta brasileiro. Com certeza roubaram um pouco dali. Mas são tantas as fontes e é tão discarada a multiplicidade de fontes que seria injusto diminuir o filme a isso. Amelie quer ajudar a todos, fala sobre os pequenos detalhes da vida, sobre os pequenos prazeres, sobre os pequenos relacionamentos. Alguns são apaixonados pela história do anão viajante, outros pela coletânea de fotos três por quatro, outros adoram a cena em que se testam os ditados populares e por aí vai. Eu, particularmente, gosto das pequenas reflexões, do tipo "quantos casais estão tendo orgasmo neste instante?"


Tecnicamente perfeito. Plasticamente encantador. Musicalmente preciso. Como diria um amigo meu, José Silvério: "um filme para encantar ao mais frio espectador, alex miller!"




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Próxima semana:
Liberdade, Igualdade e

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Quarto do Filho


Filme: O Quarto do Filho
Título Original: La Stanza del Figlio
Diretor: Nanni Moretti
Atores: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giusepe Sanfelice
Ano: 2001
País: Itália





Respire fundo antes de mergulhar neste filme. Uma das maiores rupturas que podem ser imaginadas é a perda do filho. A morte, quando já há muito esperada e consentida, quando da doença ou velhice, pode ser compreendida e aceita. Mas quando aparece do nada, de repente, sem pedir licença, o tombo é inevitável. E meu pai sempre diz que a perda de um filho é a pior que se pode ter, uma quebra da concepção natural, o ponto fora da curva. E é disto que trata este filme, de mim e de meu pai, de como ele reagiria caso eu... Bom, já o vejo batendo na madeira três vezes.

Nanni Moretti dirige e atua, sendo o pai psicólogo que perde o filho, Andrea. Antes disso, no entanto, vemos como funciona a dinâmica da família, de classe média, unida, os pais e um casal de filhos. Clássicos e típicos, o pai tentando ser um bom pai, ciúmes da filha, preocupado com o filho. A relação já era por si só um espelho de minha família, mas entra fundo em minha alma uma cena simples, na qual o garoto perde uma partida de tênis em um campeonato sem importância. Ele não liga muito, mas o pai acha que ele perdeu de propósito, porque podia ganhar. Durante o jogo fica ansioso, angustiado, é muito mais competitivo que o próprio filho que está jogando. Começa a reclamar que ele se distrai, que parte para outro mundo no meio do jogo e discute com ele após a partida. Pai: Você perdeu de propósito, joga por jogar. A graça é jogar para vencer, não é? Não, ele e eu respondemos.

E aí vem a ruptura. Andrea morre em um acidente, a vida como um sopro, o pai se culpa, não conseguem trabalhar, a relação na família se desestabiliza e por aí vai. Mas a profundidade dos personagens e o clima (como sempre) do filme, são essenciais para seu desenvolvimento. Pouco depois do lançamento deste filme saiu uma cópia americana de mesmo estilo, a mesma história, até alguns planos iguais, chamado "Entre Quatro Paredes". Uma merda que até concorreu a alguns Oscars. Vale ver os dois para saber diferenciar climas de filmes, o americano sendo dramático, exagerado, estúpido. Já o italiano é pesado mas sensível, leve toque de humor.

Vale também salientar o lado bem humorado que geralmente trazem filmes com psicólogos e suas relações com seus pacientes, como há em vários filmes do Woody Allen e um filme que falarei mais para frente, "Felicidade".


Mas como é dura, a partida de Andrea.



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Cena do youtube:



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Próxima semana:
Quem curte humor negro-familiar-britânico?
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