segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Ponto de Mutação

Filme: Ponto de Mutação
Título Original: Mindwalk
Diretor: Bernt Amadeus Capra
Atores: Liv Ullmann, Sam Waterston, John Heard
Ano: 1990
País: EUA, França


 
Ei-lo. O filme alvo, o resumo, o plot point. O livro de Capra é de 83. O filme, que aproximou na tradução o livro referência, no original é mais despretencioso: passeios da mente, ou algo do gênero. 

A ideia é simples: uma conversa entre três pessoas de três mentalidades distintas, mas com objetivos comuns, com base nos conceitos do livro de Capra. Um é um político derrotado (dizem que o alter ego do Al Gore), outro um poeta, descrente, cético. A terceira (Liv Ullmann) é a cientista iluminada que traz uma nova mentalidade à luz. Se encontram em uma ilha francesa que, como diria o Zé, as vezes não é uma ilha.

E este filme me tocou fundo na alma e no meu pensamento. Foi crucial para me abrir as "portas da percepção", como diria o eterno poeta William Blake, muito citado neste filme. O personagem poeta, sempre que encontra uma iluminação cita uma frase dele, este mestre que permeia muitas épocas e conceitos.

As ideias ali apresentadas - e devemos admitir que já estamos um pouco atrasados - agora começam a florescer timidamente na sociedade, ainda sob disfarces imensos. E ela, a cientista, insiste que uma mudança - como quer o pragmático político - só virá quando mudar a visão por completo. A mudança vem no pacote. Mas o que é esta nova visão?

Difícil resumir aqui, pois ficará tosco e sem o mesmo valor, mas essencialmente é a compreensão de que todas as coisas estão interconectadas. Sejam ações humanas, relações entre pessoas, o funcionamento da natureza e as políticas de uma prefeitura.

Ela desconstroi a visão da física como a conhecemos para revelar que quase não existe matéria nos objetos, que eles são feitos essencialmente de vácuo. E daí? O que cria as coisas como elas são é uma maluquice de relações de elétrons, que não conseguimos controlar e nem observar. Esquisito, mas e daí? É o que me perguntei. O que uma coisa tem a ver com a outra? Por que raios ela está falando de física quântica? 

Mas é aí que está o ponto. Quando se compreende que as coisas são feitas de relações e não de matérias sólidas e definidas, e quando se transporta este conceito abstrato para uma esfera global... o pensamento engata e vivemos uma espécie de Aleph (conto do Borges em que o personagem vê todas as coisas do mundo em um único ponto).

Quem viu o filme Avatar, viu este mundo (dos índios azuis), no qual a visão de interconexões está muito presente e é o grande mérito do filme. (embora tenha várias críticas ao modelo americanoide que o envolveu).

Por fim, este também é um ponto de mutação deste próprio blog. Creio que os meus leitores e espectadores dos filmes que até aqui foram postados chegam a maturidade com este filme. Acaba-se, portanto, a introdução, o primeiro terço dramático da trama. Que as portas das percepções estejam abertas e receptivas!


Torrent: download aqui
Legenda: download aqui



Cena do youtube: (as seleções de melhores partes no youtube feitas pelo usuário dantemoretti são muito boas)
 

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Próxima semana:
William Blake fazendo poesia com sangue

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Arquivo de Olhos

Em setembro, o olhar do mestre Eduardo Coutinho, documentarista brasileiro.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Santiago

Filme: Santiago
Título Original: Idem
Diretor: João Moreira Salles
Ano: 2007
País: Brasil

documentário


Quando comentei Jogo de Cena, do Coutinho, havia dito que 2007 foi o ano que mudou o documentário nacional. Santiago é a segunda razão para tal. João Moreira Salles, que considera Coutinho como mestre e produz os documentários e projetos dele, também faz suas obras primas.

Santiago era um projeto de documentário abandonado, filmado em 1992, sobre uma figura muito interessante, que era o mordomo da família Salles, Santiago. Por si só já seria suficiente para um bom documentário, desses que investigam um bom personagem, caricato e engraçado, perdido no tempo. Santiago tinha peculiaridades muito interessantes, como o fato de ser um aficcionado pela linhagens de famílias nobres e conhecer todas as histórias, fofocas e boatos que rondavam essas famílias.

Mas não era suficiente para ser um tesão. Salles sabia disso e teve que esperar sua própria maturidade para encontrar nos negativos abandonados a sua própria história e uma auto-reflexão. Resumindo, deixou o filme com toque pessoal. Colocou uma narração em primeira pessoa (na voz de seu irmão), explorou as pontas do negativo, onde estava a sua relação com o personagem e explicitou referências: musicais, Ozu e Bethoven.

Não sei se eu teria coragem de fazer o que ele fez, pois as cenas que ouvimos os diálogos do mordomo com seu patrão nos dão certa angústia e desgosto pelo diretor, que maltrata e menospreza seu mordomo. Mas ele faz questão de mostrar suas fraquezas e, de certa forma, pedir perdão por não conseguir transpor a relação patrão-empregado para uma relação documentarista-objeto.

Talvez aí eu veja uma interferência de Coutinho na vida de Salles. Creio eu, de forma muito subjetiva, que Coutinho ensionou-o a gostar das pessoas, a se encantar com todo e qualquer personagem, a colocar as pessoas no pedestal mais alto da hierarquia documental.

E além de tudo isso (!), que fotografia linda! (do Walter Carvalho) Que montagem precisa! E ouvi dizer que este nosso pequeno gênio do cinema, não sei porque, cansou de brincar com a sétima arte e não tem novos projetos. Faço um apelo para que o João Moreira Salles não nos deixe na mão...



Torrent: download aqui
(não encontrei torrent deste filme, mas este blog para onde leva este link tem a possibilidade de baixar o mesmo em duas partes)



Cena do youtube (trailer):


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Próxima semana:
Uma conversa, uma outra visão.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Arquivo de Olhos

Agosto, a construção dos olhos da paixão de Truman...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Homem com a Câmera

Filme: O Homem com a Camera
Título Original: Chevolek kino-apparatom
Diretor: Tziga Vertov
Ano: 1929
País: Rússia (União Soviética)

documentário


Um Homem com a Câmera é, acima de tudo, uma grande referência. Um dos primeiros documentários criados com imagens cotidianos e recheados de conteúdos criados a partir da montagem. Muitos depois dele o reproduziram com seus devidos olhares locais e temporais.

O princípio do documentário é simples: Vertov faz um retrato da União Soviética, das pessoas, dos esportes, do trabalho, das ruas e da sociedade. Diferencial é o modo como as imagens são combinadas na montagem, inclusive com um clássico efeito do palácio sucubindo na divisão das imagens. Em outros efeitos, combina imagens diferentes com sobreposições e animações stop motions.

Segundo diferencial importante é a metalinguagem. A câmera e o processo fílmico fazem parte da dramaturgia do enredo. Se há história no retrato de Vertov, é a história de seu processo de criação, da câmera viajando por todos os lugares e pessoas e da montagem.

O famoso Koyanisqaatsi e o mais recente Baraka seguem a mesma linha de documentário, mostrando diversos processos humanos e naturais, através de imagens e trilha apenas, sem intervenções de textos ou entrevistas.

A velocidade da montagem, para 1929 e para os dias de hoje, é de dar inveja aos videoclipes tão ágeis que fomentam mtvs da vida.

Enfim, excelente como estudo histórico e analítico. Talvez não seja o mais atraente dos filmes, mas é sem dúvida uma obra prima do cinema.





Torrent: download aqui




Cena do youtube:





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Próxima semana:
Porque é Bethoven.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fellini 8 1/2


(cartaz gentilmente roubado do cineclube UEPA, de Belém do Pará)

Filme: Fellini 8 1/2
Título Original: Otto e Mezzo
Diretor: Federico Fellini
Ator: Marccelo Mastroianni
Atrizes: Claudia Cardinale e Anouk Aimeé
Ano: 1963
País: Itália




Antes de qualquer coisa, devemos agradecer ao Senhor pela existência de Marccelo Mastroianni.

Posto isso, vamos ao ensaio pessoal de Fellini, a sua autobiografia. História de um cineasta em crise com suas obras, com sua vida, repleta de mentiras e sonhos.

O tema principal, que permeia o filme todo é a mentira e a verdade. O real e o fictício. O imaginário do cineasta vivido por Mastroianni sempre vem a tona. Ele está tentando fazer um filme sobre sua própria vida e é de sua mulher que vem as palavras que mais lhe tocam a alma: "sua vida é uma inteira mentira".

Todo artista e autor tem este grande conflito interno. Falar sobre sua própria vida é um grande peso, mas é ao mesmo tempo o que pode sair de mais cristalino em sua arte. Quanto mais profundo e mais pessoal, mais real, mais sincero. Mesmo que Fellinni adore os personagens fantásticos e brinque com linguagem surrealistas de sonhos neste filme, podemos sentir o realismo de seus sentimentos. A sequência inicial é, aliás, maravilhosa. (coloquei no youtube abaixo)

E nesta metalinguagem dentro de metalinguagem, o cineasta Guido também vive em suas mentiras os seus momentos mais sinceros.

Eu tenho grande apreço por obras que vão nesta linha pessoal, pois creio ser aí que encontram-se os maiores tesouros. Pois somos todos indivíduos únicos e diferentes. E se quisermos ser iguais, muitas regras existem, filmes são produzidos por tabelas, roteiros são criados como produtos. Mas para sermos autênticos, a única regra é buscarmos na nossa essência algo que justifique um sentimento.

Para terminar volto ao Marccelo Mastroianni. Que coisa incrível que ele conseguiu construir, um personagem com sutilezas e humanidade, com pequenos trejeitos, com infantilidade e bom humor. Agradecemos ao Senhor a existência de Mastroianni e de Fellini.




Torrent: download aqui





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Próxima semana:
Como os russos vêem o real.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Post pós-eleição

Caros, peço desculpas, mas nesta última semana antes das eleições brasileiras foi impossível assistir o Fellinni que tinha prometido. Então adio ele para esta terça-feira.

Estou devendo também algumas atualizações para outubro, uma explicação melhor sobre o que será este mês por aqui, mudança de foto e tal.

As eleições brasileiras, acabo percebendo, que muito tem do processo deste blog. Vejo que os filmes que me marcaram e que entram aqui são muito importantes para a formação das minhas opiniões políticas, da minha visão de mundo e do ser que sou, por completo. Imagino que, a somatória dos traços originais de um ser com as influências culturais e socias resultam no ser por completo. E aqui estou eu, exposto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outubro - A reflexão do Real

Em Outubro, para completar os três meses do real, vem a Reflexão do Real.

O que seria isso?
Bom, minhas referências políticas e socias estão resumidas nestes meses. São também três níveis de entendimento e compreensão. No primeiro tratei dos filmes mais diretos, mais preto no branco. Eram filmes de revelações, de observação, de relação direta com o nosso tato.

Depois veio a dúvida. Filmes mais cinzas, mais brincalhões (ou fanfarrãos), mais relacionados ao nosso cérebro. 

E agora o real virou subjetivo e tudo é real ao mesmo tempo que nada. O que é mais real é o mais sincero, o mais belo, o mais pessoal. Cada qual com sua visão, sejam italianos, russos, brasileiros, americanos ou franceses. Vamos discutir nossas percepções e perceber que há uma outra visão possível.

Encerra-se neste mês o meu curso de visão de mundo.
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