segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ser e Ter


Filme: Ser e Ter
Título Original: Être et Avoir
Diretor: Nicolas Philibert
Atores: Georges Lopez
Ano: 2002
País: França


Tenho planos de fazer um documentário ao estilo de Ser e Ter. O que significa isso? Uma câmera reflexiva que permite o tempo a criança, tão acostumada com a câmera a ponto de que tenha um convívio natural. As crianças são realmente incríveis. Existe um projeto, chamado "Seven Up" de um documentário feito na Inglaterra a cada sete anos. O primeira, na década de 60, se não me engano, era com crianças de sete anos. Genial também.

Em Ser e Ter há, ainda, este conceito que dá o título do filme. O documentário registra um ano na vida de uma escola rural, que tem estilo característico: trata-se de um tipo específico de escolas francesas, já não muito comuns, na qual apenas um professor dá aulas para diversos alunos de diferentes idades. Ou seja, todos os alunos da região, até completarem idade suficiente para frequentarem o primário, têm aula com este professor.

Os documentários têm me encantado cada vez mais, pois trazem uma linguagem mais livre, mais aberta, mais inesperada e, inevitavelmente, mais real. Temos um grande apreço pelo real, especialmente quando é tratado como tal. Se no filme Nenhum a Menos a atração cai sobre o menino problema da sala, aqui não é diferente. O astro é Jojo (na foto), figura impagável. Toda cena em que está lá o astro pode-se esperar que virá coisa boa. Fica evidente como a câmera percebe rapidamente que onde está o menino problema está o interesse quando, no final do filme, completando-se o ciclo do ano, entram novos alunos e a câmera de imediato passa a acompanhar o menor dos meninos, que já sai andando pela sala, meio perdido, até resolver chorar, pedindo por sua mãe, sem ter ninguém para acalmá-lo.

As aulas passam por todos os temas desde francês até culinária e muito se aprende sobre este cultura rural da França. O garoto mais prendado, que não vai muito bem nas aulas de matemática, sabe cozinhar, andar de trator, trabalhar na roça. De uma aula de francês sai uma cena genial, que colquei no youtube. O professor está ensinando (e eu vou ter que traduzir) o feminino e masculino de amigo. Então dá o exercício em que todos têm que completar a frase: fulana é minha... fulano é meu... todos vão bem até que um deles resolve completar com colega, ao invés de amigo, sabe-se lá o porquê.  E não há argumento que faça o menino mudar de ideia.

Há ainda a passagem do tempo e das estações, os pequenos detalhes e as pequenas cenas que fazem este filme grandioso. É interessante observar o estilo de documentário e como ele consegue criar uma narrativa a partir de um longo tempo de filmagem. Um primeiro recurso para isso é não se apegar a essa pasagem de tempo e tentar fazer um resumo de tudo que aconteceu. Se assim fosse, o filme não passaria de um grande clipe. O que ele faz é retirar trechos simbólicos, longos, de cada trecho. Também é uma forma de fazer o recorte. Em documentários, mais vale aquele que trata a parte pelo todo do que o todo pelo todo. Existe uma figura de linguagem para isso, mas não sei ao certo qual é.

Fico apenas com uma exceção, a entrevista. Há apenas uma entrevista no filme, com o professor. Por que, meu deus, por que?! Percebe-se que não é a praia do entrevistador, que não tira nenhuma informação útil e deixa o momento engessado, quebrando também toda a estrutura ausente da câmera. Apesar da cosciência da existência das câmeras, ê muito bom ver filmes documentais como se elas não existissem.

Uma cineasta brasileira, chamada Maria Augusta Ramos, dos filmes Juízo e Justiça faz isso muito bem, nestes dois grandes documentários observadores sobre nosso sistema judiciário.


Torrent: download aqui
Legenda: download aqui


Cena do youtube:


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Próxima semana:
E as escolas brasileiras?

8 comentários:

  1. Fala meu rapaz.

    A parte pelo todo é a metonímia.

    Concordo que a cinematografia deste documentário é fabulosamente bem confeccionada. Mas me incomoda bastante esse tom bucólico e o discurso conservador por trás da idéia de que este é um mundo que se esvai.

    O que o cineasta faz é exatamente como nos filmes de vida selvagem. Ele mostra a última turma de escola rural com um professor das antigas. O último retrato de uma espécie em extinção... acho meio fatalista demais.

    Mas quanto à linguagem, não há o que discutir. O filme é perfeito.

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  2. Este tema da educação é fascinante. Afinal, é a partir dela que saem seres humanos melhores (ou não). Me fascina como o diretor conseguiu fazer este documentário comas crianças como se a câmera não estivesse presente. É uma delicia esta sensação de voyuer de estar assistindo pela fresta da porta o que acontece com as crianças que, afinal, são tão espontaneas.

    P.S : Victor, teus textos estão ótimos, tem um toque de profissionalismo sem cair no pedantismo. Dá vontade de acompanhar cada semana. Parabéns!

    Sergio Fisch

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  3. Vou insistir com este senhor Fisch acima para que ele acompanhe regularmente os filmes deste boteco. Arranjarei um banquinho na minha mesa para ele. Creio que voce não irá se incomodar com isso, né não? Eu tomo conta dele para que não fique falando durante as projeções.
    :-)))
    :-))))))

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  4. Claro que pode chamar para o boteco. Ele devia ler os comentário sobre o filme O Quarto do Filho.

    Caro Pedro, não concordo com este suposto fatalismo do filme. Ele tem ar sim melancólico, mas não chego a dizer que é fatalista.

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  5. Caro José,
    Acompanho semanalmente o blog do Victor e fico muito satisfeito em ver que assisti a quase todos os filmes que ele postou. Aprecio muito seus comentários semanais e acho que eles já fazem parte da rotina do blog. Faço parte do boteco mas, gosto mais de ouvir do que de falar (ou escrever). Estou sempre presente no Bracarense (ou Jobi) do Victor. Peça uma caipirinha feita por ele para você ver como é boa.
    Abraços,

    Fisch (pai)

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  6. Caramba, o Fisch pai em pessoa...quero dizer, em caracteres.
    Quanta honra.
    Agora para de falar que eu quero ver o filme!

    :-)))
    :-)))))

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  7. Vi o filme.
    Contras:
    Achei que o cara era um bom fotógrafo que resolveu fazer um filme com as fotos que ele fez. Camera parada filmando uma árvore por 4,7 minutos, depois camera parada filmado a cara de uma criança por 7,9 minutos, depois camera parada filmando duas tartarugas numa sala vazia por 9,3 minutos...e por ai vai.
    :-))
    Me deu sono. Acho que o filme/documentário poderia ser menor. Foi muito inverno prá pouco verão, outono e primavera.
    Prós:
    Sensacional a relação das crianças com elas mesmas. Sensacional também este professor espanhol. Sensacional este tipo de escola, que eu não tinha idéia de sua existência.
    Crianças são um belo tema, apesar do seu tema aqui ser a educação delas e não elas em si.
    Isto me lembra quando fiz um video, há muuuito tempo, mais de 20 anos para trás. A idéia era filmar uma festa de criança, do meu filho, e eu filmei tudo com a camera posicionada na altura das cabeças das crianças.
    Foi super interessante ver depois a festa do ponto de vista do aniversariante e seus convidados.

    A figura de linguangem que voce fez referência se chama metonímia (eu googlei para descobrir)
    :-)))

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  8. Estou curtindo este boteco dando o que falar.

    Adorei sua descrição do filme, Zé. Em defesa do pobre coitado saio eu, dizendo que os tempos de silêncio e longos tempos servem para que nós, espectadores, compreendamos este realmente longo pasar do tempo. E mais, para ser incluido no espírito desta câmera observadora, capaz de compreender tão bem a relação das crianças.

    Ótima sua ideia do vídeo, a minha não é muito diferente. Quem sabe farei no fim do ano, partindo sem rumo para encontrar crianças por esse Brasil a fora...

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